Adriana Aneli

Prefácio · do livro O sol da tarde

A borboleta espia sua libertação

Anahí Celeste Cao

”… a linguagem é uma das manifestações mais evidentes e universais do princípio do prazer…” — Ivonne Bordelois, em La palabra amenazada

Lateja o pulso n’o sol da tarde porque a poeta sabe que o pacto da respiração se acaba; a vida nasce obrigada a um corpo na fragilidade da sua forma.

A consciência da mudança e a dor percorrem a obra unidos à ideia de liberdade na tomada de decisões ao reconhecer um antes e um depois. Nestes versos se observam o conflito e a perda ”… nota a dor/ (mas) não olha para trás…”

Percebe-se n’o sol da tarde um estranho prazer por lembrar e gozar do desfrutado: ”… volto a percorrer as tardes em que o sol fraqueja (…) flutuo sobre um silêncio gelado…”

Adriana Aneli nos confirma sua decisão, ao afirmar num tom que imagino reflexivo: ”… o que fiz de mim é melhor do que não fui…” reafirmando seu caminho.

N’o sol da tarde a metáfora das asas é associada à ideia de renascer e apodrecer, eis que, aquilo que morre, deve morrer definitivamente, deixar de ser para que possa surgir o novo: ”… viscosa fruta/ se descompõe/ daqui vejo asas em formação/ remota palavra…”

Quando leio o sol da tarde sinto uma voz feminina que luta entre nervos estirados e palmas abertas espiando sua libertação, sua música, borboleta…

Uma poeta, uma mulher que decide mergulhar no reconhecimento da sua linguagem profunda. Momento poético em que a experiência é sonoridade, memória sensível.