”[…] Uma semente com cerca de 2.000 anos encontrada no deserto da Judéia foi plantada por cientistas israelenses e germinou” — BBC Brasil, 2008
Não vê?
Chegou sua hora!
Na terra morna
o dia se adivinha
Desperta
para esta morte-mais
o ar rarefeito
a água parca…
o inóspito deserto
conserva da semente
seu desejo original.
Se é hora, sobreviva!
Quebre a dormência
e prepare a mão
que romperá a escuridão farta.
Alimentar-se da folha caída
decompor o silêncio em
sódio e carbono
sorver do pó o impacto
somar-se
em cada movimento
tornar a onda inevitável.
A partir deste ponto,
o mergulho:
enraizar-se na dor e no desamparo
sorver o apelo
entumecer-se do grito represado
até o completo rompimento.
O mais difícil é desacreditar
desaprender-se
desenrolar-se
cravar
— no minúsculo espaço de si mesmo —
a espiral ascendente.
É preciso estar atento.
Formigas-larvas-fungos-pulgões
vão cortar seus suprimentos
vão se alimentar de suas raízes
vão perseguir, intimidar, violentar
vão forçar sua derrocada
…
Algum de nós verá a luz do sol.
A terra ainda pesa
translúcida, generosa, dourada
Deitando de si mesmo, o corpo exausto
irrompe
em promessa de árvore verde
e frutos novos.