Adriana Aneli

Poema · do livro Tempestade urbana

o grande circo místico

Leio
apreendo da linguagem
comum e esquecida – ela também
o milagre possível

Leio seu espetáculo
pratos girando e regirando
corrida pelo picadeiro
lanças afiadas
ou bailarina alada
equilibrista no lombo do tempo

Arrasto correntes
mamute dissonante
arranco palavra aos pedaços\

Minha voz falha
e falha em tudo
salvo na poesia que leio num tom infantil
blocos assimétricos
amarelinha de um pé só

Falho em tudo
mas não falha em mim
o poema
que progride como doença
tropeça na lona desmontada
mete a língua e retira
da boca
o substantivo e o verbo.