Amor expresso
Gostava do café amargo. Fumaça volteando a borda da xícara. Sabia que o telefone não iria tocar. Não havia dúvidas de que o telefone não iria mesmo tocar. Estava feito. Pensou muito. A escolha: fosse sim e continuaria sua espera; fosse não, e logo se acostumaria com o nunca. Não, nunca, nunca mais. Liberdade é uma coisa boa. Liberdade é necessária para se continuar vivendo. Estava feito e não iria mais pensar nisso. Cortava o pensamento alguma lembrança. Se sacudisse com força, talvez se despregasse da cabeça. Não, não estava em seu coração. Não mais. Jarra trincada derrama o suco, vaso quebrado não segura flor, coração partido não retém ninguém. Então. Atribuiu um prazer novo à xícara que esquentava suas mãos. Carinho quase humano, o calor da xícara de café. Tranquila em suas mãos. Dez na escala de zero a dez, a xícara aquecendo aos poucos suas mãos. Pousou em sua coxa a xícara quente. Asa que sabia voar. Quando a xícara insistiu, deixou que lhe tocasse os lábios. A xícara de café tocou em silêncio sua boca. Jurou solene. Uma nova promessa de amor.