O milagre do pão
Sempre na mesma padaria. Ele chegava primeiro… ela, dez minutos depois. Sobre a mesa em que ela sempre se sentava, à direita, perto da escada, já esperava o cappuccino que, de hábito, ele pedia para ela. O suco de caju era ela quem pedia e em minutos pousava sobre a mesa dele, na janela, à esquerda. Nunca se sentaram juntos. Jamais trocaram uma só palavra. Mas eles se conheciam: quando os olhos dela se perdiam ao atravessar a rua… ele já sabia que a véspera tinha sido difícil. Ela lia, na inclinação ansiosa do seu corpo à janela, que ele estava tomado de saudade. Naquele dia atravessou a rua muito atenta. Nada viu à janela. Subiu de dois em dois os degraus da escada em caracol. Coração acelerado. Sobre sua mesa, nada. Com horror, sentou-se. Pediu café puro, sem leite, sem açúcar. Desceu amargo em sua garganta o cappuccino que o casal na mesa ao lado tomava de mãos dadas.