Adriana Aneli

Conto · do livro Amor expresso

Longe do coração

Sabia que ela não tinha licença para trabalhar: acompanhou noutro dia a correria do “olha o rapa”. Diariamente testemunhava, às sete da manhã, a vendedora se instalando com tabuleiro, garrafa térmica e um sem-número de vasilhas plásticas na calçada em frente à sua loja. Sete e meia o tumulto estava formado. A fila insistia até a hora do almoço, escondendo as promoções da vitrine. Quando a paciência se esgotava — pontualmente — o dono da loja ligava para a subprefeitura. Na Ouvidoria, conhecia todos os atendentes pela voz. Naquela manhã chuvosa e fria percebeu, tarde demais, que perdera as chaves; o carro do filho acabava de dobrar a esquina. A gerente entraria daí uma hora e meia. Esperou no tempo. Todo encolhido… tossia. Num susto, percebeu a vendedora tocando seu braço. Ofereceu a ele café com um pedaço de bolo. O primeiro gole desceu quentinho… o bolo fofo restaurou sua alma no corpo. Quando a gerente chegou, apertou suas mãos e finalmente foi para casa. No meio da noite acordou em sobressalto: preciso cancelar a reclamação! …mas estava com febre. A família o acalmou e ele voltou a dormir. Levantou tarde… e quando voltou à loja, a vendedora já não estava. Na esquina, um gatinho tentava abrir uma tupware abandonada.