Perto dos olhos...
Não dava para dizer que não se conheciam. Rosnavam boa-noite ao se cruzar no hall do elevador, ou bom-dia na garagem. Nas assembleias de condomínio defendiam interesses opostos. Eram vizinhos de porta havia cinco anos. Era fim de tarde quando a campainha tocou com tamanha urgência que correu a abrir a porta. Foi arrastada sala adentro do apartamento da frente… pela nova empregada do vizinho. A senhora precisa me ajudar, precisa, pelamordedeus, porque eu preciso deste emprego e eu não vou conseguir se não arrumar esta cama; tenho que arrumar esta cama, mas eu nunca vi uma cama com tanto babado, lençol, edredom, almofadinhas eu… nem sei por onde começar! E nem ela, imagine, uma cama daquelas! Mas deu-se ao trabalho, enfim, era testemunha do desespero da mulher à sua frente. Ajoelhou, puxou, agachou, subiu… quando ele chegou, ela estava com o cabelo em desordem e a alegria infantil da vitória recémconquistada. Ninguém falou nada. Ao se olharem, viram-se pela primeira vez… Bastou para nunca mais deixarem de tomar café da manhã juntos, na cama desarrumada.