Adriana Aneli

Conto · do livro Amor expresso

Pra começo de conversa

Desde o primeiro dia em que cruzou o pátio das Arcadas, dedicou-se ao sonho da Magistratura. Não foi surpresa para ninguém quando, um ano depois de formado, assumia sua primeira comarca; adiada a vida privada, tampouco causou comoção que no churrasco de boas-vindas, ele caísse de amores pela filha do delegado. Enquanto todos bebiam tanto, esquentou o copo de Coca-Cola nas mãos, até que servissem a sobremesa. Discurso na ponta da língua, olhos fixos na morena, não impressionou com seus modos polidos. O delegado apoiava um dos braços nos ombros da filha, enquanto girava o copo de uísque à altura do queixo da moça. Dia seguinte, oito da manhã, terno, gravata, sapato e autoconfiança repassados, dirigiu-se ao fórum. Descendo a rua, promotor, prefeito e delegado. Tapinha nas costas: — Ainda dá tempo, vamos chegar lá no bar? — O juiz, o que vai tomar? — titubeou, correu os olhos pelas prateleiras: — Dá um rabo de galo! Os outros três se olharam. Foi o delegado quem pediu: — Para nós, café com leite…