Adriana Aneli

Conto · do livro Amor expresso

A metáfora das asas

Quando o portão de ferro bateu às suas costas, soube que atravessou um ponto sem volta. Parte dele caiu junto com os cabelos raspados. Como chegava sem fama, acomodou-se dentro do uniforme e se calou na rotina do hospital-cadeia. Sem amigos, sem família, viveu anônimo no seu colchão do canto, banheiro no chão, passeios em círculo no pátio. As penas aqui se cumprem até o fim e mais um pouco, pensava, enquanto, mudo, servia café para os internos da cela. Um dia adoeceu e foi levado para nunca mais. Surpresos, agentes e enfermeiros assistiram aos companheiros chorarem ruidosamente. Com uma resistência acomodada no tijolo, uma caneca e pó de café, era ele quem devolvia a todos um pouco de humanidade.