Sem dor, sem ganho
Nunca se sentiu parte de nada. Estudou o mais que pôde, abocanhou vaga na faculdade e colocação no emprego público… ternos, escadarias, poltronas de veludo não entravam no seu repertório. Confiante no próprio estranhamento, trabalhou despercebido até que, em pleno expediente, trancou-se na sala de café. Nas primeiras horas, ninguém notou sua ausência, mas à medida que o dia avançava, começou o desespero coletivo para que saísse de lá. Iniciaram-se as negociações: que, por favor, não tocasse nos pacotes de wafers, nem nas carolinas, fresquinhas. E os brigadeiros? Silêncio, silêncio: muita calma ou ele faz alguma besteira. O que ele queria? Sair mais cedo, dispensa do relógio de ponto, uma mesa perto da janela? Para alívio de todos, o bolo de cenouras estava em segurança sobre a mesa da oficial maior. Quando decidiu abrir a porta viram, aterrorizados, a jarra da cafeteira nas mãos do sequestrador… dela, o vapor ainda escorria, pouco antes de se espatifar no chão.