Prefácio
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“Há o perigo de um grito lindíssimo quando andas assim comigo no invisível”
— In. “Pena Capital”, de Mário Cesariny
Depois de ler “a construção da primavera”, na companhia de um expresso ristretto… conclui que a vida é feita de pausas. Sim, eu já sabia disso… mas, na contramão da realidade, algumas coisas nos escapam.
Deixamos de olhar para o lado e perceber a cadeira vazia… o feixe de luz que desce sobre a mesa, junto à vitrola em estado de abandono, com restos de nós… café! Usamos óculos para corrigir pequenos erros de visão… e acabamos por perder instantes inteiros, uma vida inteira.
A realidade não é fácil, admito… e, viver tanto tempo se alimentando da ilusão, acaba virando desculpa para o “não ver”. Aquele azul da manhã a colorir a paisagem, caramelando as nossas sensações. O sinal fechado para as idas e vindas. A rua vazia com suas casas em pares…
Nos dias atuais, de tanto ler, acabo por não ler… apenas enxergo palavras a compor frases. Virou um gesto mecânico. Tropeço no ato do “ser melhor”, sempre — quase uma obsessão. Acuso a incapacidade de ler… e lamento ser refém de um desejo: à perfeição. Perder a poesia, não alcançar as metáforas.
Contudo, ao ler-te… me afastei de mim mesma e percebi, por um instante (breve imenso, não sei…), que, quando um livro é bem escrito, a poesia acontece e interfere na pele, na alma… a partir dos olhos. Por isso, digo — com algum prazer e imensa satisfação — que eu me perdi de todos os mapas que trago em mim.
Escrever, para mim, sempre foi respirar, e ler… perder o ar! Ler as linhas de Adriana Aneli — minha autora — em ordem-desordem, orientadas por estações próprias (do ano) da vida… me fez perceber o prazer de conjugar certos verbos, sem preocupações de técnica e didática — apenas leitura, como da primeira vez em que me brindaram com um livro e, em estado de espanto-encantamento: devorei faminta um punhado de páginas.