Adriana Aneli

Crônica · do livro A construção da primavera

Inverno

fruta madura trava a boca

cigarro esmagado no cinzeiro da sala

no quarto ao lado

pende o enforcado

teatro de sombras à luz de velas

pássaro que escapa pela janela

é abatido no voo.


O céu está cinza ameaçador e venta. Na rua, um redemoinho carrega destroços da guerra urbana: caixa de sucrilhos, embalagem de sabão em pó, saquinhos de compras e alguns panfletos executam seu balé. Ao final do espetáculo, a chuva cai.

Desço do carro e caminho sob proteção. Um mendigo enrolado em seu cobertor cuida para que não o arraste na calçada imunda. Penso em dar a ele meu guarda-chuva. Ele nota em meus olhos alguma intenção, mas simplesmente passa por mim.

Inerte, eu não lhe entrego nada.


Frio. Até com o ar condicionado desligado, frio. A ventania de ontem derrubou uma sibipiruna na minha rua. Gigante de pés de barro.

O trânsito ficou impedido. Um homem vende balas em sua cadeira de rodas; deixa-as penduradas nos retrovisores dos carros. Tenho pressa, mas diante da contrariedade, abaixo o vidro e deixo algumas moedas caírem em suas mãos. O contato me causa aflição: a sujeira pegajosa e a pele endurecida.

Quando o guarda faz sinal para seguir, acelero. Do retrovisor, o pacote de balas se desprende na primeira curva.


Ainda sobre a queda da árvore. Todos comentam que foi a consequência da reforma no imóvel antigo, onde plantada. Abalou suas raízes.

Não posso ignorar essa informação, já que propus a mim mesma uma reestruturação durante quatro estações. Medo de, ao final, desabar sobre meus próprios escombros.


Passo pela rua em que, há um ano, a parede de uma construção desabou matando um homem que caminhava pela calçada. O mesmo fato se repete em outros bairros: são casarões do século XIX, derrubados para dar lugar a prédios comerciais ou estacionamentos. A fachada é preservada e o passado é descartado.

Progresso: nossa história em ruínas; sobrevivemos, como uma maquete oca.


Gripe. O corpo dói por inteiro. Não tomo remédios e deixo a doença seguir seu ciclo.

Padeço o autoconhecimento; não vou apressar as coisas.


Paciência porque o período é de desintoxicação; eliminando tudo aquilo que me faz mal.


Há um tigre solto dentro de casa. São vários os cômodos em que ele se esconde. Não se podem domesticar os tigres, principalmente o branco. Sinuoso, feroz e imprevisível ataca quando menos se espera. O medo é meu tigre branco.

Tigres brancos não são encontrados na natureza.


O medo de ter medo. A ansiedade antecipatória impede gestos simples: um telefonema, atravessar a rua, cumprimentar, tirar fotografia. Autocrítica e rigidez.

Meu tigre me obriga a ser adolescente aos 40 anos.


É preciso sair das sombras, dizem. Tento: o caminho é de cimento fresco.

Arrasto o peso que se acumula na pressa de escapar para sempre.


Por hábito, um dia de descanso no começo de mês ou no dia em que doo sangue.

Não doei sangue. Voltei sobre passos antigos, à rua em que estudei, num bairro de muito tempo atrás. Não encontrei nenhuma conexão. Antes de desistir, dar meia-volta, avistei um ipê branco, tísico, plantado na ilha da Avenida Domingos de Moraes. Uma adolescente fotografa a planta com admiração: inverno, acinzentado, ainda assim sabe florir.

Recebi sangue novo: seiva correndo em minhas veias.


A cidade cansou de se mostrar cinza. Seca e poluição. A demanda é pelo verde. Espalham-se jardins verticais e hortas urbanas nos tetos dos prédios.

Espaços criteriosamente organizados para nos lembrar de que há o tempo da dor e o tempo da cura.

A luta silenciosa não admite perdedores.


(Pardal voa pela paisagem imaginária e se choca contra o vidro da sacada).


Hoje haverá uma intervenção na minha rua. Carolina por trás da cortina, quando começa eu não desço. Daqui assisto balanços serem instalados nas árvores, hortas verticais, grafites nos muros, teatro de rua.

Gosto do que vejo: a ocupação do espaço público numa cidade que se pensa tão desumana.

Há sede de convivência e um sol que começa a brilhar dentro mim.