Primavera
ela chega
sol suave sobre flores brancas
alheia
ao tempo que se esqueceu dela
os copos-de-leite têm uma beleza que me atordoa
compro doze
pétalas tenras sobre o caule longo
eles vão morrer em um dia, meus copos-de-leite!
a florista segue seu caminho
indiferente
ao meu desespero.
Sol intenso logo pela manhã. Enxaqueca. Penso que já é primavera e pesquiso para descobrir:
— Inverno: de 21 de junho a 23 de setembro;
— Primavera: de 23 de setembro a 21 de dezembro;
— Verão: de 21 de dezembro a 21 de março;
— Outono: de 21 de março a 21 de junho.
Se o calor se projeta com tanta intensidade no final deste inverno, posso esperar o melhor ano da minha vida acontecer aos 40?
“Irei para uma outra terra, para outros mares; encontrarei outra cidade melhor do que esta.”
Coloco na mala destroços do mesmo sempre.
“Não há nenhum barco à sua espera, nenhuma estrada para fora da cidade”.
Ainda assim eu vou. Pelas ruas que se cruzam infinitamente, a cidade me acompanhará.
Estou numa cidadezinha do interior, na época da eclosão das cigarras. As louveiras do quintal são seu santuário.
As ninfas passam um ano embaixo da terra. Sincronizadas, saem do chão todas ao mesmo tempo, deixando suas cascas presas nas árvores. Ganham asas: por duas semanas cantam e se acasalam. Morrem, deixando ovos espumados nos galhos das árvores. Quando os ovos eclodem, novas ninfas caem como gotas de chuva. Mergulham na terra.
É o que temos a fazer, antes que pássaros famintos nos abocanhem.
Dia de visitas.
No entardecer, também recebo o ouriço cacheiro e uma mariposa gigante.
O ouriço enrola-se sobre si mesmo quando se sente ameaçado. A mariposa voa para longe. Preciso decidir com qual dos dois me identifico.
Borboleta.
A bússola solar da monarca pulsa. É primavera e o calor me desperta da longa hibernação.
No laguinho artificial, descubro alevinos escondendo-se nas raízes das plantas. Também os peixes lutam pela sobrevivência. Um gato olha fixamente para a água… Pássaros dão mergulhos certeiros.
Sobre a pedra, o corpo semidevorado do espadinha renova minha crença infantil no bem e no mal.
O dia amanhece preguiçoso nesta cidade. Bichos e plantas despertam com a luz do sol e seguem seu curso.
No autofalante da cidadezinha anunciam o falecimento. Ouço a música fúnebre, enquanto sanhaços e bem-te-vis se revezam sobre a fatia de mamão que deixei para eles. Um após o outro, infinitamente… Nunca ao mesmo tempo.
Cigarras continuam sua melodia. Fico em paz. Ganho um olhar generoso sobre todas as coisas, sobre a vida.
Tomo a decisão: apanhar todos os panfletos que me entregam na rua, não destratar vendedores, caixas, atendentes de telemarketing.
Fim das garantias individuais, extensas jornadas, coerção, violência, ameaça, dívida fraudulenta. O trabalho aviltando o homem, 128 anos após o fim da escravidão.
Análogos: nossa consciência terceirizada.
Um carro na rua grita o pancadão em potentes autofalantes. Paredes e janelas vibram.
A música de raiz me entusiasma: a pesquisa histórica de ritmos e a restauração de instrumentos antigos. Villa-Lobos, Mário de Andrade, Christina Pluhar, Yo-Yo Ma, La Petite Bande, Carlinhos Antunes, Rai Anciola, Marcus Pereira — garimpeiros.
Segue a trilha sonora do mundo globalizado. A música eletrônica sugere que daqui a milênios, sem combustível ou energia elétrica, seremos lembrados como uma civilização silenciosa.
O som da terra, a memória da água, os protestos do fogo, os recados do vento.
“Pobre de aquel corazón
Que no guarde su esperanza.”
Evito cheiros doces, gosto do amadeirado, enlouqueço com os cítricos, minhas memórias remotas.
Infância na praia, brincadeira no quintal; passeio pela manhã, mãos dadas, meu presente.
Respiro fundo. O pulmão se abastece dos melhores pensamentos enquanto a cica floresce.
Plantei uma no quintal. Aguardo, ansiosa, a primeira flor de abacaxi.
Mais uma estação que se vai, e com ela vários projetos a que me dediquei este ano. A sensação é de dever cumprido? Há um misto de alívio e de vazio. Quando um ciclo se fecha, é preciso voltar a atenção para as próximas escolhas.
Que o sol saia definitivamente detrás das nuvens. É um desejo.