Verão
“[…] Quantas flores sobre a terra! Tende piedade das flores caídas. Não se deve varrê-las e misturá-las à lama; mas conservá-las para as abelhas”.
paranoica entre eletrodomésticos
aguardo
inadequadas raízes se espalham
levanto calçadas
tempestade urbana me desconecta.
São Paulo amanheceu vermelha: Viaduto do Chá, Biblioteca Mario de Andrade, Ponte das Bandeiras, Monumento às Bandeiras, Borba Gato, Câmara dos Vereadores, Sala São Paulo, Sede da Secretaria de Desenvolvimento Social, Sede da Secretaria de Saúde, Fonte do Parque do Ibirapuera, Instituto do Câncer, Memorial da América Latina e Assembleia Legislativa: é uma campanha.
Doadores de sangue correspondem a apenas 1,9% da população. Faço parte desta minoria, desde os 18 anos, duas vezes ao ano.
Algumas dezenas de vezes em que eu me sinto realmente feliz.
O dia quente renova minha vontade. Saio de casa, vou ao mercado e, no fim das compras, puxo da frente do caixa uma barra de chocolate. A funcionária me pergunta se eu sei o quanto custa… O caixa do lado se aproxima: — São onze reais só porque é de amêndoas; o tradicional da marca custa apenas dois e cinquenta!
Já vou devolvendo quando a funcionária me diz: — se você comprar, volta aqui para dizer se é bom mesmo? A gente tem vontade, mas falta coragem para comprar.
Pago pelo chocolate. Abro ali mesmo e digo a eles que vamos descobrir agora se é bom. Compartilhamos o doce. Nossa risada é cortada pela gerente chegando com a bronca.
Assisto à faxineira do prédio em frente passar as pernas para fora da sacada. Ela limpa a vidraça do 20º andar, sem nenhuma proteção ou segurança. Ligo para os bombeiros, que dizem: — não podemos fazer nada, senhora.
Saio de casa. Atravesso a rua e aviso o zelador… Vou com calma… Fazer o que é certo.
Impensável durante o inverno, atravessei a rua. Sol a pino obriga à trégua.
Sei exatamente onde o tigre descansa. A meus pés, ronrona como um gatinho aquecido.
Integração. Vontade. Mudança. Uma coisa leva a outra e, quando se vê, comprei minha bicicleta.
Entre a hostilidade dos carros e o tornozelo torcido, o vento acariciando meu rosto com liberdade.
Tenho algo ainda melhor: casaram-se duas amigas. Uniram seus corpos e sua arte.
Moro neste país em que as pessoas constroem família a partir do amor. O sol se ocupa da felicidade e a vida floresce em delicadezas.
Vivo a sorte do amor. Conto tudo a ele. Construímos sobre a base sólida do autoconhecimento.
Ao redor da mesa, conversam distraídos, todos diferentes em alguma medida. O dia abafado torna inquietos os menores, que correm pela sala.
Observo de longe a bela figura que surge: há vinte anos reúno fragmentos preciosos para o meu mosaico.
Quando acordo, ela ainda não se despediu da noite. Sai de casa na chuva, às vezes, de pijama. Colecionadora, conhece em detalhes o organismo vivo da cidade em que moramos.
Ainda assim, pede minhas impressões sobre tudo: nosso ritual de divertimento.
Também sou colecionadora. Não acumuladora. Há diferenças. Ouço as histórias que os objetos contam: desejos e dores humanas testemunhadas em segredo.
Há uma sombra que se prolonga sobre a terra, incendiando pneus, plantações e o coração da gente. As ruas fervem sua agonia de não ter, não poder, não dever.
Ameaçam nossa liberdade… não é momento para calar!
— Combustível.
— Calor.
— Oxigênio.
Fogo combate fogo. Intolerância contra intolerância.
Não encontro vencedores.
Uma libélula invade a exposição de esculturas inspiradas no livro Sobre Lagartas e Borboletas. Curiosamente, seu nome vem do latim libellulus, diminutivo da palavra liber e significa “livro”.
Inseto-símbolo da transformação inspira o desapego, a humildade e a efemeridade.
Fim da metamorfose? A vida é um sopro.