Adriana Aneli

Crônica · do livro A construção da primavera

Outono

feito a carvão o sorriso desaparece

lápis forçado contra o papel

pretende marcas

hidrocor guache spray tinta para tecido

inútil:

volátil é o tempo.


Emite seu som de alerta: o gavião está na área. Saguis se assanham a vista de todos — são novos, não puseram a mão na cumbuca. Ouriço açulado espia de longe, pássaros desesperados guardam de volta seus filhos às cascas.

Insetos admiram seu voo, esquecem, também eles, que estão na base da pirâmide.


Aos dez anos, o menino é abatido a tiros. Gorila escapa-se à peça de teatro, para ser trucidado em zoológico. Máscara sobre máscara.

Na dúvida nos drogamos com nossas convicções.


Para ele dói mais. Viu de perto o ódio se tornar esperança. Acreditava que finalmente…

O passado: refluxo queima a garganta e impede o grito.

Aguardam-se prisões. Sem julgamento. A liberdade é um sonho roubado.


Ele está certo; do verão amo a tempestade, que estranhamente se antecipa no outono, este ano.

“Percorria o vidro com a ponta dos dedos, respirava fundo — como quem morre — e misturava o lado de fora ao lado de dentro…”

Compartilhei desta chuva de hoje… a de sempre… a memória: somos 60% água, matéria líquida aconchegada à passagem do tempo.


Está excepcionalmente frio este outono. Há também a névoa densa que não se dissipa.

Na rua, assisto novas encenações da mesma tragédia. A miséria impotente testemunha a ignorância.

No hay que ser pobre, hijito, es peligroso. No hay que nacer, hijito, es peligroso”: a chuva fina marca a tensão até tomar humores de tempestade.


Sobre a distância entre o céu e a terra, estende-se o lençol de estrelas-fantasma. Atendo ao chamado; vozes dos despossuídos, ossos do deserto, cemitérios clandestinos, corpos gelados em água salgada. Aqui e por toda parte a lama insiste.

(“Chile está lejano y es mentira”)

Insistimos mais: a insolência de sobreviver. Para mudar.


Dores insepultas.

“La tierra voraz espera enamorada.

Yo soy um cuerpo que no olvida.”


Perco hoje o meu amigo mais querido. A transitoriedade me atinge com seu soco no estômago.

Busco memórias amenas para aniquilar a sensação. Perda, conheço com intimidade: entorpecimento, inconformismo, desespero, aceitação.

Fases da lua. Aproveito a luz pálida do luto para caminhar em silêncio.


Faço um pacto irrevogável com o tempo: ele passa, eu me conformo.

Aprecio o autorretrato que se forma. Arredondado e em tons pastéis, abranda-se o meu destino.


Do ponto em que parei: seu voo. Flores germinadas nos jardins do útero. Sangue circula; desejo que se derrama quente pelos pensamentos do corpo. O peso da renovação.

Com elas, a continuidade.


Gosto do vapor que se forma após o banho quente. Quando a luz atravessa a vidraça, partículas coloridas se equilibram na nuvem morna.

Deusa do amanhecer, vento do Norte, cauda de raposa, valquíria em armadura brilhante… alma dos mortos.

Minha aurora boreal dura poucos minutos: as lentes que curam a miopia também estragam minha brincadeira.


Encontro paz nas montanhas do Chile. No silêncio gelado, a resignação dos esquecidos.


“… Y me quedo velando

por años en la selva

tus huesos, tu ceniza,

inmóvil, lejos

del odio y de la cólera”