Deus da carnificina
Quase completava um ano que, ao final do expediente, ele recolhia o lixo do oitavo cartório. Quando ele se aproximava de sua mesa, ela gentilmente se abaixava. Entregava a ele a lixeira, um sorriso no rosto e um delicado até amanhã. Ela não sabia seu nome, mas ele conhecia a marca do lenço umedecido com o qual ela limpava as mãos, a barrinha de cereais de sua preferência e a marca do adoçante que usava em seu café. Devotava-se a estudar seu lixo, na esperança de quem sabe um dia… Quando entrou, ela estava cercada pelos colegas, recebendo alegres cumprimentos. Com a timidez ardendo em seu rosto, resolveu que já era hora. Tomou coragem, pediu licença e penetrou a roda. Foi em sua direção. Ela, sempre gentil, mais uma vez se abaixou e depositou em suas mãos a lixeira transbordante da festa de aniversário.